quinta-feira, 30 de abril de 2026

Bateu Saudade

As vezes sinto saudade de mim, mas hoje acordei com saudade de você. Acordei sorrindo lembrando do seu sorriso, das danças bobas que fizemos na areia da praia, dos poemas roubados que te mandei, das loucuras não planejadas, simplesmente vividas. Lembrei da vida simples, mas rica em sonhos. Lembrei das horas seguidas ouvindo canções em que nos imaginávamos vivendo ao que era descrito poeticamente: “quando fevereiro chegar, saudade já não mata a gente...”.

Fui invadido por uma retrotopia, mesmo sabendo que ontem não volta jamais e que o paraíso não está no passado, e ainda assim desejei quando a estrela caiu, encontrar com você, nós dois como éramos e não como somos. Desejaria ter encontrado nós dois como planejamos que seríamos. Cantarolei "pela minha lei a gente era obrigado a ser feliz ...".

Não, saudade aqui não é mera lembrança, descrita pelo poeta, como expressão de felicidade já vivida. Mas também não é saudade como desejo de rever, que é mero sofrimento. É a descrição de uma experiência vivida que me invade vividamente de forma arrebatadora e neste déjà vu-profético, “lembrei de você, linda e nua em meus braços, quase que chamei você, mas olhei pra mim mesmo. E parei os meus passos, de tanta saudade percebi que um homem também sabe chorar”.

De repente me vi no meio da feira livre ouvindo o menestrel que declamava: “De saudade ninguém morre, sem saudade ninguém vive, eu já tive até saudade da saudade que não tive”, e assim, sentindo cheiro do café, seria ele que teria despertado tudo isso? Sorri e cantei: “Sei que ai dentro ainda mora um pedacinho de mim, um grande amor não se acaba assim, feito espumas ao vento. Não é coisa de momento, raiva passageira, mania que dá e passa feito brincadeira ...”. E de repente me dei conta que o “pensamento parece uma coisa à toa, mas como é que a gente voa, quando começa a pensar?" Me resignei ... e continuei a vida na certeza de que "... meus começos, só vêm se eu aceitar o fim, e as flores que voaram dos meus sonhos, vão crescer noutro jardim". Ah! como a vida é boa ...


segunda-feira, 27 de abril de 2026

ORAÇÃO SEM PALAVRAS

As vezes orar é gritar, derramando lágrimas. É o grito da alma oprimida por situações que estão

acima de quaisquer possibilidades de solução. É o desespero humano clamando para que todos

ouçam e saibam da sua dependência absoluta daquele a quem ora.

Às vezes orar é se fazer ouvir, em gestos e palavras. Numa encenação cujo objetivo é ensinar e

fazer com que os ouvintes compreendam que a glória é de Deus e que a resposta não é fruto do

acaso, coincidência e nem manipulação mágica, mas ação direta de Deus às nossas necessidades,

como o fez Jesus quando orou pela restauração de Lázaro.

Às vezes orar é se assemelhar à Ana: derramar o coração por meio de palavras – inaudíveis, mas

que adentram a sala do grande trono branco. Quem nos vê percebe a grande aflição, mas jamais

compreenderá completamente o que fazemos.

Às vezes orar é se “trancar” no quarto secreto e à semelhança da Sunamita, nada declarar a qualquer

pessoa, senão única e exclusivamente àquele que pode efetivamente mudar a situação ou mudar o

nosso próprio coração para enfrentar a dor mais cruel sem perder a doçura e a esperança.

Às vezes orar é somente descansar “à sombra do Onipotente”. Isso faz lembrar de um diálogo:

– O que a senhora fala para Deus quando ora?

– Nada, eu só escuto.

– E o que Deus fala para a senhora?

– Nada, Ele só escuta.

A beleza de orar não está quando a resposta vem. O extraordinário da oração ocorre enquanto se

ora, quando se depõe todas as armas, quando se embainha a espada e quando se rende ao Senhor,

Aquele que ama, Aquele a quem todas as coisas e pessoas estão submissas, Aquele que envolto em

mistério habita os céus, mas que ao mesmo tempo é o “Pai nosso”. E que não precisa de palavras,

pois antes que as pronunciemos já sabe o que precisamos.

Senhor, que haja PAZ, a começar por mim ...

Roberto Amorim

quinta-feira, 17 de outubro de 2024

AMO PORQUE AMEI

 

A vida é feita de recomeços. Vivemos estágios que se sucedem, mas também vivemos a experiências de rompimentos, de retrocessos e de recomeços. Todas estas experiências são dolorosas e muitas vezes tentamos evitá-las, mas elas são absolutamente necessárias ao crescimento, à evolução. Já confessei diversas vezes que sou piracêmico, e isso traz consigo a verdade incontestável que amo porque amei. Simplesmente não consigo desgostar, desamar e menos ainda odiar o que ou quem já amei.

Amo Itinga da Serra embora tenha vivido muito mais tempo longe dela do que nela. Estabeleci relações mais profundas e duradouras fora de lá do que com seus cidadãos. Mas há algo em mim que me faz olhar a praça e enxergá-la como um oásis, que me faz enxergar em suas ruas pegadas que me levam de volta ao paraíso. Nada aconteceu nos últimos anos que possa me fazer querer revisitar aquele lugar, mas há algo que transcende o tempo e o espaço e que me faz desejar e mais, me faz precisar de um retorno para que minha alma seja animada novamente. Amo porque amei.

Quando o casamento se rompeu e nas redes sociais nada apaguei fui arguido porque permanecia com fotos da minha antiga companheira, ao que respondi que simplesmente não conseguiria apagar tudo de maravilhoso que vivi, mesmo que nos últimos tempos o relacionamento tivesse se desgastado, ou seja, continuava e continuo amando porque amei. O fim do relacionamento naquele formato não implicava em desamor em intensidade semelhante ao amor que nos uniu até ali, não significava nem mesmo que quisesse esquecer tudo que vivi, porque isso implicaria em apagar tudo que recebi de presente e que me ajudaram a ser quem sou nas últimas décadas.

Durante o período de acirramento político vivido no Brasil vi amigos queridos, parentes e pessoas próximas optarem por uma ideologia diferente da minha, alguns laços ficaram tão fragilizados que os relacionamentos praticamente deixaram de existir, mas dos meus amigos ainda me lembro com afeto e desejo piamente que passado o vendaval possamos restabelecer os laços e vínculos que me são tão caros. Pode ser que alguns deles jamais sejam refeitos, infelizmente. Mas ainda que isso aconteça, carrego no bolso da minha alma as memórias, afetos e sonhos compartilhados. Digo que jamais ousaria proferir qualquer palavra maldita contra qualquer um/a deles/as. Amo meus amigos, minhas amigas que perdi, porque os/as amei. Mia Couto, com sua lucidez poética afirma: “Amar é um verbo sem passado. Uma vez tendo amado nunca mais se deixa de amar. Amar e viver são verbos sem pretérito. Não perdemos nunca os que amamos. O amor está para além dessa contabilidade”.

Pensando essas coisas tentei encontrar a raiz de um afeto assim, quase masoquista, de continuar amando quem me desama, quem já me esqueceu ou aquilo que a rigor já nem existe mais. E em meu socorro vem um pensar, ou melhor, um especular teológico. A teologia é dessas coisas que a vida me deu, que me ajudam a ver a existência com outros olhos. E fiquei especulando se este amor não teria base no próprio Deus. Imaginando estas coisas lamentei que durante o tempo da tradição oral tenha se perdido a fala de Adão sobre os dias que antecederam à saída do paraíso. Talvez tenha se perdido porque alguém com extremo senso de realidade, extremamente racional tenha interpretado aquelas falas como fala-ciosas. Os relatos das tardes quentes na Vila Édem, embaixo da mangueira degustando seus frutos, os banhos de rio – ora no Tigre, ora no Eufrates. As brincadeiras de pique-esconde, enfim, a vida pulsante e a relação construindo memórias afetivas e de repente, num dia qualquer o relacionamento se rompe, não mais o encontro, não mais as festas, não mais o afeto. Aquele lugar outrora O Paraíso, tornou-se “sem forma e vazio”. Eu falei que a extrema racionalidade, o zelo exacerbado e o extremo senso de realidade tenderiam a nos fazer desconfiar do relato.

Deus nos ama porque nos amou. Há uma relação cujas histórias nos foram apagadas, mas continuam a existir enquanto memória afetiva, e talvez por isso construímos catedrais, criamos as religiões, como memoriais da ausência, como desejo de voltar, de estar novamente na relação como era dantes. Mas Deus, onisciente, se recorda de cada um desses dias, dos tempos imemoriais, continua a nos amar, não consegue nos desamar. Poderoso que é, desejou, planejou e executou o sonho de nos ter de novo no seu Jardim para que a brincadeira recomece.

Enquanto este dia não chega, por conta de tanto afeto envolvido na relação divino-humana fez, segundo Alberto Caieiro, Jesus Menino vir viver como uma criança igual a todas as outras, e “hoje vive na minha aldeia comigo. Uma criança bonita de riso natural”.  Tudo que peço pra que a brincadeira recomece, para que o amor que tive se atualize é a mesma oração de Adélia Prado: “Meu Deus, me dá cinco anos, me dá a mão, me cura de ser grande ...”

terça-feira, 15 de outubro de 2024

MUDE

 

A ampulheta já consumiu um pouco mais da metade da areia e o demônio lhe apareceu, como diria Nietzsche, e lhe deu a notícia de que assim que a ampulheta fosse virada iria tornar a viver tudo, nos mínimos detalhes, que já vivera, sem tirar nem por. Acordou desesperado, suando e ofegante, não poderia haver pesadelo pior e nem castigo mais cruel, seria o inferno dos infernos. Pela primeira vez sentira o peso real da sua existência. Qual seria o peso de uma alma? A sua parecia regida pelas leis da física, atraia a si os objetos mais pesados, na mesma medida em que, como a Torre Inclinada de Pisa, se sentia atraído inexoravelmente para o chão. Existir assim eternamente lhe parecia tão cruel.

Insensato é quem fazendo as coisas da mesma forma espera resultados diferentes. Pôs-se a pensar como gostaria de viver dali por diante. Seu padrão cerebral lhe dizia que ali é um inferno, mas ao menos é um inferno conhecido. Se a escuridão ali é imensa mas é um onde já sabe como se mover. Mas dentro de si há algo que anseia alçar as velas e se arriscar pelo mar desconhecido, que tanto ama. Sentiu a alma leve, pela primeira vez, ela parecia ter realmente apenas 21 gramas. Como um bailarino, dançou, ouvia uma música com os ouvidos que parecia ter nos dedos do pé. Imaginou como seria aquele tempo que resta, como seria realmente viver algo novo, sua alma contente consigo, sorriu, dançou ao som da música que só ele ouvia.

Mas um peso abrupto o arrastou de volta ao chão. Seria aquilo possível ou não passaria de um delírio? Nosso cérebro adaptado torna-se nosso Capitão do Mato. Assim como no passado aceitamos a “verdade” de que a sangria do paciente era terapêutico, que os espíritos maus “colocam” doenças nas pessoas e que o fedor “espanta” espíritos, o que hoje parece risível. Também a forma como concebemos a existência, socialmente, e que nos parece impossível viver de uma outra forma, nos tem feito carregar um fardo insuportável no presente. Mas a cena do sonho estava vívida: era a vida que gostaria que se repetisse eternamente?

Anelou por uma outra vida possível, pesou o preço a ser pago pelo rompimento com as regras de uma sociedade de desempenho e de altíssima competição. Se deu conta de que o peso da alma estava ligado diretamente à escolha que teria que fazer naquele exato momento. A vela tremulava e no horizonte já podia ver a terra se distanciando enquanto calçava suas sapatilhas ...

terça-feira, 23 de abril de 2024

 Te vojo bene assaje

Hoje acordei embalado pela lembrança de CARUSO, na belíssima voz de Bocelli: "Guardò negli occhi la ragazza / Quegli occhi verdi come il mare / Poi all'improvviso uscì una lacrima / E lui credette d'affogare". E de repente, uma lágrima caiu, e ele pensou que estava se afogando. E me vi perdido em meus pensamentos, memórias, dores e sonhos. 

A sensação era de quem se afogaria naquela lágrima, tal era a dor que parecia partir a minha alma ao meio. Nada mais parecia valer a pena, a vida parecia se esvair, como em Caruso. Num relance de eternidade, vivi num instante o que Enrico Caruso precisou de uma vida inteira para experimentar: A alegria por ser/ter amado muita vezes, sofrido ... E de repente me sentia feliz, e me peguei cantarolando: "Te voglio bene ... Ma tanto, tanto bene, sai". 

Eu estava me afogando em lágrimas, mas descobri que eu sei nadar ...


quarta-feira, 20 de março de 2024

OUTONO




As estações do ano servem de metáforas para roda da vida. Podemos vive-las inclusive todas num curto espaço de tempo. No verão e na primavera é possível viver intensamente a alegria, a descontração e as cores mais vibrantes. No inverno o mundo parece inóspito, um deserto desesperador. 

Entramos agora no outono, estação rica em lições. Nesta estação dias e noites se equivalem, há quedas das folhas, talvez sua imagem mais marcante, mas é também a estação dos frutos. Por estar entre o verão e o inverno vivemos algumas coisas bastante peculiares: a instabilidade nas temperaturas, incluindo a possibilidade de nevoeiros – a nossa própria existência em determinados momentos segue exatamente esta regra: quando deixamos de ser crianças e ainda não somos adultos, vivemos a riqueza e instabilidade da adolescência. Quando vivemos a transição da idade adulta para a maturidade caímos na crise da meia-idade. Há outra lição extraordinária do outono é uma tendência de sonhar com os dias idos do verão, das cores, do prazer e a tentativa inútil de tentar não pensar no inverno que se avizinha e que pode amedrontar.

Lembramos com alegria, e certa nostalgia, do verão que se foi, mas que voltará. Fazer a preparação para o inverno já antevendo a beleza da primavera é o desafio existencial. “o que a lagarta chama de fim, o resto do mundo chama de borboleta” (Lao Tzu). Bem-Vindo outono!

quinta-feira, 14 de março de 2024

MÁQUINA DE MOER REPUTAÇÕES



Foi lançada uma série documental que promete revelar a máquina de moer reputações e quem são seus operadores. Na era da pós-verdade é fundamental que sejam denunciados os maquinadores e financiadores desses entes diabólicos. Aproveitando a ocasião quero surfar no tema e dizer que essa indústria é mais antiga do que se pensa. Tem sido uma tendência colocar o nome das leis que combatem crimes a partir de casos e vítimas emblemáticas, venho sugerir que se faça um reconhecimento de Maria Madalena como a patronesse ou padroeira de todos os que tiveram as suas reputações moídas. Justifico, afirmando que nenhuma outra personagem teve a sua reputação manchada por tanto tempo como esta nobre senhora.

Já passaram mais de mil e quinhentos anos a calúnia do suposto adultério de Madalena. Sabedores da sua liderança no corpo apostólico e com receio que isso inspirasse outras a invadir o espaço reservado aos homens na hierarquia da igreja, era fundamental manchar a sua honra e a sua história. Assim nasce, séculos depois da sua morte, a má-fama de adúltera. Qual a base documental ou testemunhal de tal fato? Uma meia-verdade, distorcida e pronto a máquina de moer reputações estava operando. Assim Madalena virou sinônimo de adúltera. Havia uma mulher apanhada supostamente em ato de adultério e perdoada por Jesus e havia uma seguidora chamada Madalena, pronto era só sobrepor as histórias e de uma meia verdade se faz uma mentira completa. Séculos de acusação e ninguém parecia se importar em investigar a verdade, que estava bem ali nas páginas dos evangelhos.

Só quem morreu na fogueira sabe o que é ser carvão e assim é inegável que esta vítima e sua história milenar pode servir como símbolo de combate as milícias que destroem reputações que são construídas por toda uma vida. Tendo reconhecida a nossa patronesse, quero destacar que a máquina só funciona porque além dos seus operadores e financiadores, há os consumidores. Muita gente mansa, caridosa e com reputação acima de qualquer suspeita, em nome dos seus valores age como consumidor de reputações moídas, que são servidas na mesa de jantar diariamente.

Na sociedade das subcelebridades parece que as únicas reputações que interessam são aquelas expostas na mídia. Mas há máquinas portáteis tão destruidoras de reputações quanto aquelas do escritório do crime, com a diferença de que seu alcance atinge o microcosmos em que habitam suas vítimas. Quantos cancelamentos inexplicáveis, quantas amizades rompidas, quantas portas fechadas, e tudo por causa dessas máquinas portáteis, mas devastadoras de vidas. Confrontar seus construtores, operadores e patrocinadores é importantíssimo, mas é preciso dizer que os consumidores são tão responsáveis quanto e que este produto só faz sucesso porque há um público ávido por consumi-lo.


terça-feira, 21 de novembro de 2023

Desejo de AMAR


Desejei amar ... e numa tentativa inútil tentei gerá-lo dentro de mim. Mas me dei conta, daquilo que os gregos já sabiam desde muito tempo, tempos imemoriais. A amor é o néctar de Deus e que Ele concede aos seus filhos/as o privilégio de provar da sua essência (Rm 5:5). Mas para recebê-lo é preciso construir cálices numa mistura perfeita entre ouro e sonhos, num simbolismo daquilo que nos é mais caro (Lc 9:23-26). Só é possível construir com fé, muita paciência e uma criatividade artística acima, muito acima da média até que se encontre a medida adequada, que dê a liga necessária e a beleza reluzente e cativante.

Após essa preparação com altíssimo custo, o néctar é derramado até transbordar. Antes de prosseguir é preciso avisar que ao tocar o cálice, o néctar ardente, o derrete. Este se desfaz antes que se deguste o primeiro gole. Surge aqui o primeiro grande obstáculo para se deliciar com o seu dulçor. Muitos se apaixonam tanto pela beleza hipnotizante do cálice que se recusam a enchê-lo e vê-lo derreter, por isso optam por um similar, artificial. Um afeto de laboratório que simula as reações do verdadeiro amor, mas sem ter que abrir mão de nada, a não ser do próprio amor. O verdadeiro néctar, ardente, derrete o cálice, escorrendo em todas as direções, inundando o mundo de emoções. Alcança a todos e todas, muitos/as que nem sabem da sua real existência e do seu valor, por isso o usam, o manipulam e nos machucam. Aqui reside um outro grande obstáculo: o medo da dor e do sofrimento. E numa tentativa de evitar tal mal, vestem couraças que não lhes permitem serem tocados pelo néctar ardente. Se não sentem a sua dor, também é verdade que não o sentem em todo o seu fulgor.

Hoje terminei meu cálice, uma obra-prima, maravilhosíssimo. É uma pena saber que não resistirá quando o néctar for derramado nele, desaparecerá por completo. Mas ao mesmo tempo será uma experiência extraordinária, vale à pena. Será maravilhoso ver e sentir o transbordar com toda a sua força, seguindo em todas as direções, inundando o mundo de emoções, vendo os corações se elevarem e se iluminarem. Por sua força criativa tornar aqueles/as que dele bebem em artistas que amam e criam sem medo de errar ou de se machucar, uma nova realidade, um paraíso, ao menos para os amantes. 


terça-feira, 17 de janeiro de 2023

Hoje eu Acordei Velho

 


Hoje eu acordei Velho

A vida é feita de pausas. As pausas acontecem para evitar o cansaço ou por causa dele. Fato é que vez por outras a gente cansa. Não falo do cansaço físico, falo de uma certa e branda desesperança. Aquela ideia que passa pela cabeça (ou coração) de que não vale a pena. Faço ideia, por causa dela, do que seja uma pessoa desesperançada e entendo por conta disso entendo o último ato de uma pessoa desesperada.

É, a gente cansa. Quando isso acontece a alvorada ganha cores de ocaso e a 5ª sinfonia de Beethoven se converte numa marcha fúnebre. Todo fragmento de esperança é visto com cinismo e toda frase alegre tem sempre uma conjunção adversativa. A gente já acorda cansado, o dia se alonga, mas nunca é o suficiente para dar vencimento as suas demandas. A gente acorda sem vontade de acordar.

Estou no modo PAUSA. Amanhã quem sabe eu renasço, revigorado e pronto para o novo ciclo.

segunda-feira, 5 de julho de 2021

Monopólio do Sagrado: Delírio ou Estelionato

 A coisa mais nefasta da religiosidade de mercado não é preço da commoditie celestial. Mas o fundamento que justifica o preço: o monopólio do sagrado. Com a alta demanda por produtos como milagre, absolutamente necessário em virtude das múltiplas tragédias que nos cercam: acúmulo indecente do capital, pela expropriação, pela exploração, pela banalização da violência, pelo desprezo com a vida humana, pelo abandono, etc., a que estão relegados os excluídos, e na tentativa de tornar a vida ao menos suportável, com uma oferta bastante escassa, ao menos do produto genuíno, cria-se o ambiente absolutamente favorável ao surgimento de produtos sem eficácia, de placebos, falsificados, etc.

Um dos gargalos que beneficia a Religiosidade de Mercado é a Auto-regulamentação, ou seja, a indústria da fé é a responsável por atestar a autenticidade dos seus produtos, e é ela quem determina quem são os “infiéis”. Quem já não viu o sensor na TV chamando a todos os que dele discordam de “esquerdopatas” ou coisas do gênero?

O depoimento do Senhor Wizard à CPI da Covid escancara a porta do quarto mais secreto na fábrica da picaretagem religiosa. Mostra que os produtos tidos como genuínos não resistem ao menor teste de qualidade. Exposto a um pouco de luz fez derreter a cera do engano. Aquilo que de longe, e especialmente longe do fogo, parece ser o mais fino produto e o mais excelente acabamento de uma obra perfeita.

Não se engane, Deus não se deixa aprisionar. Deus não está preso à fórmulas, a esquemas (nem mesmo e principalmente os religiosos). É sabido que Jesus não tinha predileção por religiosos nem se deixava enganar por discursos e nem mesmo determinadas práticas tidas como piedosas. Alertou os seus para o perigo dos falsos que falam e dizem agir em seu Nome. “Acaltelai-vos, porém, dos falsos profetas, que vêm até vós, vestidos como ovelhas, mas que no íntimo são lobos devoradores” (Mateus 7:15).  Ele disse ainda: “Nem todo que vive com o meu nome na Boca dizendo: Senhor, entrará no Reino” (Mateus 7:21).

Deus não é monopólio de ninguém e de nenhuma religião. Jesus revelou-se a todos e todas. Declarou fé invejável entre aqueles que não faziam parte da religião hegemônica no seu país: Elogiou um romano por sua fé, fez o mesmo com uma mulher cananéia. Diz, no Evangelho de Mateus 24 e 25 que dentre os que são elogiados no último dia estão pessoas que não pertencem ao espectro religioso hegemônico e que ficarão surpresas com o elogio e dirão: mas quando te fizemos isso? “O Espírito é livre e sopra onde quer e não sabes donde vem, nem para onde vai”. Deus não está nem lá, nem aqui, está entre. O resto é delírio ou estelionato.

sexta-feira, 7 de agosto de 2020

O AMOR E A LÁGRIMA

 

O AMOR E A LÁGRIMA

Seu Hipólito era homem muito querido e respeitado, também era conhecido por ter uma saúde de ferro. Mas um dia, de repente caiu em cima de uma cama com mal incurável. Por seu histórico de boa saúde todos esperavam uma cura tão repentina quanto a doença. Mas os dias se passavam e o velho Hipólito só definhava sobre a cama e gemia de dores. A crença numa cura era cada vez menor entre os amigos e até a própria família. A única que ainda se aferrava a esta crença era Elvira.

Numa manhã cinzenta a velha curandeira chamou Elvira e lhe aconselhou: Minha filha, seu pai só está esperando que você o libere. Desagarre dele e o deixe ir, pare com esse sofrimento. Hipólito jazia numa cama, morre-não-morre. Dias, semanas e meses naquela agonia e sofrimento. Atendido o pedido da velha curandeira, Hipólito partiu naquela mesma tarde. Como nos conta Adélia Prado: “amor é a coisa mais alegre. Amor é a coisa mais triste”. A vida deu Hipólito como um presente, mas quem nos faz sorrir de amor, de amor nos mata ao partir. A coisa mais triste e mais maravilhosa no amor é aprender a deixar ir, abrir mão de dominar, se recusar a prender.

O amor não tem gaiolas, nem correntes. Amor é vento: livre, leve e solto. O amor engaiolado é como o ar engarrafado, não serve, nem tem frescor e nem emburra jangadas para as aventuras em alto mar. Amar é não ter garantias, o amor não pode ser declarado à priori, como eterno. Amar é não ter livros de contabilidade, é não esperar reciprocidade, afinal amor não se paga. Amar é abrir mão pelo bem estar do ser amado mesmo que isso custe uma lágrima.

terça-feira, 4 de agosto de 2020

Lições da Noite


a noite estrelada
LIÇÕES DA NOITE

Dentre as lições do dia está o saber aproveitar para se alegrar (Salmo 30:5), para produzir (João 9:4). É o tempo da ação humana, sem necessidades de grandes reflexões, é a vida despreocupada. Na linguagem do sábio nele não há grandes lições existenciais (Eclesiastes 7:2), a própria experiência é capaz de prover o necessário.
A noite, como metáfora da existência, nos ensina muito mais. É a privação chegando aos seus limites mais extremos. As noites podem ser mortais para os principiantes impacientes, afinal a primeira noite longe de casa, do colo de pai e mãe gera insônias e aflições (Gênesis 28:11, 16-17). Aqui me permito parafrasear o poeta e afirmar que a noite é coisa para profissionais.
Os neófitos só conseguem enxergar o breu, que lhes apresenta os seus próprios medos mais profundos (Jó 3:25-26), os marujos de outros mares sabem enxergar para além da própria escuridão e vêem em cada luzeiro noturno um mundo e são milhares deles ali, acima das suas cabeças. Enxergar no breu, depois que o sol se vai, milhares de sóis, de possibilidades só é apreendido por quem está grávido de mundos, que como Sherazade vai escrevendo uma nova história a cada noite, se recusando a morrer.
Para enxergar o cosmos como uma grande tela pintada por mil e um Picassos é preciso ter perdido os medos e as ilusões e ser poeta/profeta, que constrói o mundo com sua palavra e ações. Um viajante de muitas noites aprendeu que a vida é cíclica onde os dias festivos são sucedidos por noites assombrosas em que não é possível fazer nada, apenas se entregar, contemplar e esperar. Esse viajante deixou escrito nalguma pedra, como referência para os próximos caminhantes: “O choro pode durar uma noite, mas a alegria festiva vem ao amanhecer” (Salmo 30:5).
As noites não são pra sempre, como os desertos elas são escolas do espírito. A noite mata algumas ilusões, dentre elas, a de que os dias e a alegria duram pra sempre, ininterruptamente. O luto por estas ilusões que se foram deve ser vivido intensamente, mas não longamente. Quem alonga o luto prolonga a noite, a dor vira melancolia e a noite tende a pairar mais tempo que o necessário sobre as próprias cabeças e na alma. Tivesse Noé sido deixado lambendo as próprias feridas e o mundo não se estenderia para além da própria nau. A terapia vem quando o Criador lhe chama: “Sai da arca”, ou da cama e vem viver a vida, já é dia, planta a vinha e se alegra (Gênesis 8:16). Tivesse Elias sido reprovado no teste da noite da alma e teria sido sepultado numa caverna escura, mas Deus o trata questionando as razões de fazer aquela noite durar tanto, lhe designando que voltasse a vida, que saísse daquele quarto escuro e que deixasse o sol brilhar sobre a sua cabeça novamente (I Reis 19:13-15).
Encerro com uma lição de um outro peregrino de uma noite escura: “mas é claro que o sol vai voltar amanhã, mais uma vez, eu sei. Escuridão já vi pior, de endoidecer gente sã. ESPERA QUE O SOL JÁ VEM”.

domingo, 10 de maio de 2020

NINGUÉM MORRE UMA VEZ SÓ


A morte não sabe brincar. Todo dia eu a venço e no dia seguinte o jogo recomeça, mas o dia que ela ganha, o jogo acaba. Assim não tem graça. Não me proponho a falar da morte com pesar, nem como passagem para uma outra vida e nem nada que o valha. Quero, falar das mortes que tive que enfrentar antes de morrer. Por fim poderei, inspirado em Quincas Berro D’água, dizer quando a morte natural chegar: essa não é a primeira vez que morro.
Assim como no caso de Quincas, os outros podem decretar nossa morte. Se me lembro bem, na novela de Jorge Amado, a família decreta a morte de Quincas quando ele renuncia à vida que levava. Das mortes decretadas, pelo outro, e aqui me permito uma digressão - Jesus afirmou que isso era possível, ao dizer que quando construímos uma narrativa da vida do outro com a intenção de detratá-lo ou destruí-lo já foi cometido o assassinato[1], o matamos, a morte social, fruto dessa narrativa, está em alta em nossos dias.
De todas as mortes que já morri uma eu não consigo me acostumar, embora já a tenha experimentado algumas vezes, numa espécie de Déjà Vu. Me aconselha o sábio que “quando alguém disser alguma coisa a meu respeito que não corresponda à verdade, devo viver de tal forma que todos percebam que ele está mentindo”. Mas devo admitir que praticar a teoria do sábio, além de ser extremamente doloroso, é demorado e não há nenhuma garantia de que as pessoas ainda estarão prestando atenção quando a verdade vier à tona.
Poderia dizer que as mortes que morremos têm a função de nos permitir “reviver” mais sábios e, como diria Herzer, menina de rua e poetisa citada por Boff: “Eu só queria nascer de novo, para me ensinar a viver[2]”. A Bíblia dos Cristãos e Judeus diz que para se alcançar a sabedoria é preciso aprender a contar os dias[3], numa alusão ao aprendizado cumulativo, à famosa experiência de vida. O problema é quando somos românticos demais e cremos que as pessoas são diferentes e que agirão de formas diferentes em situações semelhantes, e temos que morrer muitas vezes e renascer outras tantas, num eterno retorno do mesmo[4].
A vida é uma grande brincadeira, no final o que conta é quantas gargalhadas dei, quantos momentos me surpreendi e perdi o fôlego, quanto amei ... Não será feita a conta de quantas vezes morri, mas de quantos matei numa tentativa vã de exorcizar a morte, que como eu disse não sabe brincar, basta ganhar uma vez e o jogo acaba.


[1] Mateus 5:22
[3] Salmo 90:12
[4] Nietzsche, Gaia Ciência.

Obrigado, MÃE


Existe uma fórmula para ser feliz: Não ame. Quem ama corre o risco de sofrer, de chorar sem razão, mas também de sorrir no meio de uma tarde de sol causticante, de viajar por espaços inimagináveis para lembrar de um gosto, de um gesto, de um sabor. Mas até isso nos faz sofrer (um sofrimento acalentado pela certeza de que é melhor sofrer de amor do que não amar).
Quem ama, morre um pouco quando pessoas amadas ficam encantadas. Morremos um pouco, parte de nós parte, histórias que completam aquelas lacunas em branco na nossa memória se vão para nunca mais. Aquele jeito de nos acolher, aquele olhar que diz o que as palavras não são capazes de expressar permanecerão pra sempre no bolso da alma.
Hoje, especialmente hoje, sofro. Sofro porque amei, porque minha memória insiste em lembrar tudo que vivi e não posso mais voltar. Lembro até de histórias que não vivi, mas que contaram. De uma menina, abandonada pelo pai e que por conta disso teve que abdicar do sonho de ser professora. De uma guerreira que teve que ser forjada no forno mais quente, no ambiente mais duro, na existência difícil e que por conta disso precisa construir os seus castelos sobre os sobrenomes (que lhe pertenciam, mas que nada mais significavam do que palavras, visto que do sobrenome só ficaram as palavras, ela era a gata borralheira a quem estaria destinada as tarefas que ninguém mais quisesse fazer, por considerarem menos relevantes), construindo sua narrativa mais baseada nos sonhos que nos fatos para poder aguentar o peso da existência. Da mulher que teve como espelho outra guerreira que lhe ensinou que maternidade é estender as asas sobre as crias e ter um coração do tamanho do mundo. De uma sonhadora que jamais desistia, nem se acovardava diante dos gigantes. Ainda me lembro dela indo fazer o curso da Casinha Feliz - aquilo era mais que um curso, era a ressurreição de um sonho adormecido no fundo da alma. Sair de casa, já mãe de filhos adolescentes, para realizar o sonho de menina (ser professora).
Sim, definitivamente morremos um pouco a cada dia, mas morremos um pouco mais quando as pessoas que amamos se vão. Mas também é verdade que assim como morremos um pouco quando elas se encantam, elas vivem um pouco em nós, e assim o sonho da vida eterna começa a tomar forma. Elas continuam a existir mesmo não estando mais entre nós.
Com esta memória viva quero aqui expressar a minha justa homenagem a esta menina, mulher, sonhadora e guerreira, Dona Eliete. Obrigado, mãe. Hoje eu lhe canto: “seu maquinista é favor parar o trem que hoje (quero homenagear) a quem tanto eu quero bem ...”

sábado, 11 de abril de 2020

Os dois lados da mesma moeda



Conspirar vem do latin e traz a ideia de respirar o mesmo ar, significando um ato da mais absoluta confiança. Para conspirar é precisar frequentar a mesma sala secreta, e guardar os mesmos códigos, segredos e planos. Quem conspira, confia a sua vida ao outro. Basta uma delação e a morte será certa. Neste sentido conspirar é sinônimo de confiança no seu estado mais puro e absoluto.
Também do latin vem a palavra traição. Trair é entregar algo que que lhe foi confiado e que pode prejudicar o outro. O irônico de duas palavras com significados tão distintos e opostos, é que em ambas a confiança é a base. Para que haja a traição é preciso haver anteriormente a confiança.
A traição é um ato/processo sórdido. É preciso lembrar de pessoas outrora amadas, de planos e sonhos com os quais também se sonhou com o desejo de se dar bem em detrimento do sofrimento dos outros. Para trair é preciso respirar outros ares, ir a outra sala secreta para delatar segredos, planos que ajudou a criar e o pior, pessoas que jurou amar, e via de regra, fazer a sua interpretação sem esquecer do ditado que diz que “quem conta um conto aumenta um ponto”, neste sentido todo traidor é mentiroso tanto na base como no topo. Traição é sórdida por ter como objetivo aplicar sempre a “lei do Gérson”. Enquanto conspirador usufrui, no caso da vitória da revolução, de lugar de destaque, e como traidor também usufrui, se a situação não mudar, com a manutenção do status quo e temos até lei privilegiando a "delação premiada", traidor recebendo benesses e status de herói.
Mas a traição também é reveladora, diferenciadora. O traidor, embora leve vantagem passageira, sempre terá que se enfrentar perante o espelho da vida ou terá que se esquecer de quem era, tornando-se um morto vivo. É diferenciadora por colocar cada qual no seu quadrado, por manifestar a diferença entre o digno e o indigno, não importando o espaço social que cada um ocupará após a traição. Jesus ao receber o indigno Judas, frequentador dos espaços de poder e aliado do poder que dantes queria derrubar, acena-lhe com o afeto mais puro e com palavras leais que o valorizam: “a que vens, amigo?” Enquanto Judas ao aproximar-se usa o beijo, arma de quem conspira, como senha da morte, como arma letal.
Conspirar e trair são os dois lados da mesma moeda: a confiança. Toda relação mais próxima sempre revelará qual dos lados prevalece na vida de alguém.

sexta-feira, 10 de abril de 2020

É sexta-feira, meu Senhor está morto ...


É sexta-feira ... meu Senhor morreu!
Como bem disse Antonio Scurati sobre a nossa geração: “... a era do mais longo e distraído período de paz e prosperidade desfrutado na história da Humanidade”. Somos seres da era do analgésico, dos ansiolíticos e da morfina. Desaprendemos a lidar com a dor. Por isso, sempre que possível nos entorpecemos, dormimos e como que num passe de mágica, passamos ao momento seguinte, da alegria.
Quando agimos assim perdemos a chance de tirar as lições preciosas que só são possíveis de aprender nos desertos, nas fornalhas e nas cruzes. O sábio diz: “melhor é ir à casa onde há luto, do que ir à casa onde há riso ... pois o rosto triste torna melhor o coração”. Não, não há aqui nenhum resquício de masoquismo, de gostar do sofrimento. Mas a sabedoria lhe ensinou que certas lições só podem ser aprendidas mediante a dor, que quem sofre se torna mais humano, mais solidário, menos egoísta.
Nas manifestações da páscoa cristã, nas comunidades evangélicas o espírito deste tempo, entorpecido, fica bem evidente. Há uma fixação no domingo da ressurreição em detrimento da sexta-feira da crucificação. Parece haver um horror em contemplar o Senhor morto. Os apóstolos não tiveram outra alternativa a não ser contemplar, chorar a perda, sofrer a agonia, viver à beira do desespero por causa da triste notícia de que o Senhor da Vida estava cravado numa cruz, morto.
A nossa tradição precisa resgatar isso, precisamos também viver essa dor, chorar essa perda e lamentar essa morte. "Hoje é sexta-feira, o Senhor está morto. Se está morto não há esperança, tudo é dor, sofrimento e confusão. Tudo em que cri e pelo que vivi não faz sentido!, poderia dizer qualquer dos apóstolos. Mas quem matou o Senhor? Nós o matamos, disse o Pensador. Eu e você. Ele foi cravado ali por causa de mim e de você. Foi por amor, João declara: “Deus amou de tal maneira ... que entregou seu Filho”. É ali, na cruz ensanguentada que vejo um amor que não tem como ser medido. Ali, na cruz ensanguentada, com o Senhor morto, vejo a gravidade daquilo que chamo de equívoco, errinho, falta ou mesmo pecado. Amo meu Senhor cravado naquela cruz, é ali que percebo o quanto Ele me ama. É ali que vejo como é grave o pecado que tão de perto me rodeia. É ali que percebo o que o pecado faria comigo se não fosse o amor extraordinário de Deus por mim. Eu preciso ficar ao pé da cruz, eu preciso contemplar o meu Senhor agonizando e declarando o seu perdão por mim, por nós. É ali, na Cruz ensanguentada que posso ouvi-lo dizendo ao Pai que está completa a sua obra e que Ele agora entrega o seu espírito.
Preciso tomar o seu corpo e levar ao sepulcro. Necessito viver o sábado do silêncio ... da espera. Num tempo onde as pessoas não têm tempo, preciso viver a agonia da espera. Tempo de não ter nada além de uma promessa. Tempo em que os fatos se sobrepõem às “verdades”, onde a dor apaga toda e qualquer possibilidade de virada. É tudo isso que dará algum sentido ao que chamo de futuro, é a sexta-feira da morte e o sábado da espera que tornam a domingo da ressurreição tão extraordinário.
Sem a cruz ensanguentada, sem o Senhor morto e sem o enterro, o sepulcro vazio não significa nada. A alegria da ressurreição só faz sentido para quem viveu o desespero da morte.

domingo, 24 de junho de 2012

Lavando a Alma

Um dos maiores pesos que se carrega na alma é o orgulho.  Ele tem sido responsável pelo insucesso de muitas pessoas e pela queda de outras tantas.  Diz o texto sagrado que o “orgulho precede a queda”.
É tal o poder destrutivo deste sentimento que Jesus dedicou um dos momentos mais sublimes da sua vida terrena a combatê-lo.  Conta-nos João, o Evangelista, que na noite da última ceia Jesus pegou bacia com água e toalha.  Não para lavar os pés dos discípulos, como erroneamente se pensa, mas para lavar as suas almas.  Assim como a massagem nos pés traz benefício para todo o corpo e para cada órgão em particular, Jesus ao lavar os pés dos discípulos estava focando a limpeza da alma.
Ao servo de uma casa cabia lavar os pés dos convidados para uma festa, somente depois de lavados os pés, o convidado podia adentrar para celebrar.  A ceia estava acontecendo, mas ninguém se propôs a fazer este papel, antes discutiam quem seria o maior.  A lama do orgulho dos discípulos só foi lavada, com a atitude humilde de Jesus de tomar o lugar do servo e servir “aos mais importantes”. 
Mas o orgulho não é um sentimento de uma única cara.  Ele pode estar travestido inclusive de pseudo-humildade.  Vemos isso claramente quando o Mestre se aproxima de Pedro para lavar-lhe os pés e este “humildemente” se recusa a deixar-se lavar – até parecia a atitude piedosa de João, o Batista.  Mas Jesus identifica o DNA do orgulho e prontamente o combate, declarando que quem não se deixa lavar por Jesus, não tem parte com Ele.
Os discípulos estavam impedidos de servir ao próximo por causa do orgulho. Já o orgulho de Pedro quase o impede de entrar na festa da salvação.  O orgulho tem sido causa de insucesso na vida, infelizmente até dos discípulos de Jesus.  Mas assim como fez com os discípulos Jesus veio para nos livrar dessa carga.  Livre-se, Liberte-se.  Vive a Liberdade que Jesus conquistou pra você.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Olhar Enviezado


Engana-se quem pensa que o jovem Daniel foi lançado na cova dos leões por razões religiosas ou políticas.  As razões políticas ou religiosas são máscaras, maquiagens que a alma mesquinha se utiliza para encobrir o verdadeiro motivo: A Inveja.

O invejoso que se preza jamais admite a sua inveja. Quer que pensemos que o que o leva a perseguir, a falar mal, a manchar a honra de outrem ou desvalorizá-lo é sempre uma “suposta causa nobre”.  O que me faz crer que todo invejoso é também impostor, mentiroso.

Inveja é uma palavra de origem latina cujo significado literal é “olhar enviezado”, “olhar torto”.  Rubem Alves diz que uma “coisa ruim mora no olhar do invejoso”.  Creio que por isso o seu olhar é “enviezado”, para que ninguém veja o verdadeiro espírito por trás da inveja.  Por ser “torto” distorce tudo, aí o que é belo parece feio, o que é certo parece errado, o que é bom parece mal.

Disse o poeta: “as invejas dão movimentos demais aos olhos”, sendo assim é de se crer que no fundo, no fundo todo invejoso tem um coração perturbado.  Os olhos são reflexo do interior, afinal foi Jesus quem disse: “os olhos são as janelas da alma”, “se teus olhos forem puros todo o corpo será puro”, pois os olhos refletem o que acontece por dentro.

Mas o que os portadores desta enfermidade não sabem é que ela tem o DNA da morte.  Primeiro e preferencialmente da vítima, do Daniel, daquele que detém algo que o invejoso gostaria de possuir.  Mas em última instância o DNA da morte se manifesta também no próprio invejoso, que ao perceber que Daniel não foi devorado pelos leões, lança-se cova adentro, porque é melhor a morte que assistir o triunfo do outro.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

EU TENHO UM SONHO

No filme enrolados, Rapunzel impede que seu guia seja entregue para ser executado, despertando nas pessoas mais vis, seus sonhos esquecidos. Os sonhos transformam covardes em heróis, meninos em guerreiros. Sonhos são pra sempre.  A história está repleta de casos de pessoas que foram assassinadas mas seus sonhos continuaram vivos. Mataram Luther King, não o seu sonho. Mataram John Lennon, não seu sonho.  Ao matarem o Senhor da vida, não destruíram seus ideais, que continuaram e continuam bem vivos na vida dos seus seguidores.
A maior tragédia da vida se dá quando alguém sepulta seus sonhos.  O assassino dos sonhos usa diferentes armas, mas a mais comum é A REALIDADE.  Nada é mais palpável que ela, não é mais incontestável que ela.  Diante da realidade todos se curvam, todos os argumentos cessam, afinal, contra fatos, não há argumentos.  Ao sonhador resta se conformar.  Muitos terminam a sua história aqui, lançados na cisterna seca, na caravana de mercadores, como escravos na casa de Potifar ou na masmorra do palácio.
Mas sonho é como gato, tem sete vidas.  O sonhador é irritante, insistente, não desiste.  Mesmo contra fatos, mesmo contra o impossível, ele continua acreditando.  Como diria o artista francês Jean Cocteau: “não sabendo que era impossível, ele foi lá e fez”.  Como os renegados do filme enrolados, muitos tem aberto mão dos sonhos por conta da dura realidade, são verdadeiros sepulcros de sonhos.  Mas os sonhos estão ali prontos para serem ressuscitados.
Os seus inimigos nada podem fazer contra seus sonhos, podem até intentar mal contra, mas o Senhor transforma mal em bem, se não abrimos mão dos sonhos que Ele plantou em nossos corações.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

INIMIGOS GRATUITOS

Ao longo da vida vamos garimpando relacionamentos.  Não é apenas nas redes sociais, acreditem, mas na vida real também é assim.  Somos garimpeiros de relacionamentos.  Por nossa bateia (instrumento utilizado pelo garimpeiro para separar ouro de outros materiais) passam todos, alguns não ficam, mas o amigo permanece ali, bem no fundo, “no lado esquerdo do peito, dentro do coração”, trazendo alegria a nossa alma.
Mas se somos surpreendidos pela vida com pessoas tão generosas e como não existe bom perfeito, muitas vezes ao longo da vida somos atingidos pelos inimigos gratuitos. Aquelas pessoas que sem razão aparente, decidiram nos odiar e mais, decidiram infernizar a nossa vida e não se aquietarão enquanto não tiverem nos atingido na alma.  Há um caso bíblico de Mardoqueu,  homem bom, leal e sincero, mas que por conta dessas qualidades atraiu a inimizade e o ódio de Hamã.
Hamã fizera de Mardoqueu seu desafeto e aquele sobre quem derramaria todo o seu furor.  Chega ao ponto de colocar a sua felicidade na dependência da infelicidade do seu inimigo gratuito.  Um dia após receber todas as honras no palácio real diz que não pode ser feliz, enquanto seu inimigo não for destruído (Ester 5:13). Por que todo este ódio?  Nada, Mardoqueu não lhe fizera nada.  Só não estava “rezando por sua cartilha” (Ester 3:5,6).
Os inimigos são um fato. Não é possível obrigar alguém a gostar de nós, portanto é preciso aprender a conviver com eles.  A primeira coisa que precisamos saber é que nossa felicidade e realização não dependem deles (Ester 10:3).  A segunda, e não menos importante, é que não precisamos nos tornar como eles, a maior vitória dos nossos inimigos seria nos fazer tão odiosos quanto eles.  Ao ser traído por Judas, Jesus o recebeu dizendo: “qual a razão da sua visita, meu amigo?” Em outras palavras Jesus disse: Judas você me elegeu como seu inimigo, mas eu continuo a amá-lo, meu amigo.  A maior vitória sobre o ódio dos inimigos é a disposição de continuar amando-os, apesar de tudo.